FRASE DO MÊS

Março

"A velhice, a doença e a morte lançam reflexões sobre a minha vida."

Um celestial chamado Rohitassa pergunta ao Buda:  – É possível, Venerável senhor, através de viagens conhecer ou ver, ou chegar ao fim do mundo, onde a pessoa não nasce, não envelhece, não falece e não renasce?  

O Buda Shakyamuni responde: – Quanto a esse fim do mundo, eu digo que não pode ser conhecido ou visto viajando – O celestial ficou maravilhado e confessou que não o havia encontrado, mesmo viajando sem interrupção pelo mundo.

O Buda Shakyamuni observa: – Amigo, é exatamente nesta carcaça de comprimento de uma braça, dotada de percepção e coração, que eu revelo o mundo, a origem do mundo, a cessação do mundo e o caminho que conduz à cessação do mundo. *

O fim do mundo é o fim do Eu. Por meio da contemplação introspectiva, visualizamos o mundo no nosso interior. No Colóquio Unilateralmente Sentimental (1968), o poeta Manuel Bandeira (1886-1986) publicou uma crônica intitulada de “O Consolo” que transcrevo abaixo:
O CONSOLO

Quando o velhinho adormece, o seu subconsciente se libera e com ele todos os sequestros do medo, do arrependimento e do remorso. Mas, ao despertar, voltando-lhe a consciência a assumir o comando das ideias e imagens, uma tal e qual tranquilidade se vai aos poucos estabelecendo, o ruído de um avião que decola repete-lhe a difícil lição de partir…

Ontem, como nos outros dias, foi assim, só que ele realizou (deixem o anglicismo tão gostoso e cômodo) que hoje seria dia de seus anos, 75 anos, número bonito, 7 e 5 são 12, noves fora 3, símbolo da Trindade. Antes tivesse ficado nessa conta. Não, pois se lembrou depois que 75 anos são três quartos de século, e a perífrase lhe pesou na alma como um lajedo irremovível. Três quartos de século! Lembrou-se ainda que já vivera 13 anos mais do que vivera o pai, tão mais comprido em idade, em sabedoria do que ele (o pai impunha respeito a toda a gente, ele não).

Teria acaso apreensão da morte? A bem dizer, não. Nem física, nem metafísica. Apreendia, porém, o modo de morrer. Por isso, a certa altura da vida, passou da devoção de Nossa Senhora dos Impossíveis para a de Nossa Senhora da Boa Morte, que uma boa morte era tudo o que já agora desejava, certo de que os bens mais cobiçáveis deste mundo não valem mesmo nada. A vida lhe parecia cada vez mais “uma agitação feroz e sem finalidade” ou, como disse melhor o inglês, “uma história sem sentido, cheia de bulha e fúria, contada por um doido”… Sabia que, nas palavras do mesmo inglês, “somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos”… Gostava de repetir aquilo de Píndaro: “O homem é o sonho de uma sombra.”

Na iminência de completar os 75 anos, não via para a frente senão espantalhos ameaçadores, não via para trás senão fragmentos de pobres prazeres, que nem ao menos tivera a oportunidade (ou a coragem) de fruir com plenitude. De sorte que as alegrias se lhe representavam agora pequeninas, pequeninas, como objetos olhados pelo lado contrário do binóculo… Os desgostos, as mágoas, as decepções, esses sim, cresciam, avultavam, entenebreciam o dia, no entanto de sol ardente, de céu azul…

Azul!…Azul…! Foi então que o milagre ocorreu. Recordou-se da descrição que o astronauta soviético deu do nosso planeta visto de sua nave espacial. Daquelas lonjuras, a Terra é toda azul, azul! E o velhinho se sentiu feliz, inexplicavelmente feliz de se saber habitante de um planeta que visto de longe, muito longe, é todo azul.

* Devaputtasamyutta, Rohitassa, Samyuttanikaya, Vol.1, 62, 18-22

Rev. Keizo Doi
Monge Regente do Templo Shin Budista de Brasília