SOBRE O BUDISMO

O Budismo é uma filosofia, uma ética para a vida, ou uma religião?

Esta é uma pergunta frequente entre leigos e pessoas interessadas. O Budismo é visto e seguido por muitos como uma filosofia, mas é, sim, uma religião, embora não renda culto a nenhum Deus. Também não se pode afirmar que os budistas são ateus. Mais correto seria dizer: a existência de um Deus não é uma questão considerada pelo Budismo.

Os seus ensinamentos estão voltados para a nossa existência.

Como o nosso Eu funciona e como este Eu origina todos os nossos sofrimentos. O que nos agrada, desejamos manter, repetir indefinidamente. O que nos desagrada, evitamos, contornamos, em um exercício de autoengano. Não aceitamos, sequer percebemos, a condição impermanente e interdependente de todos os seres.

Sofremos porque vivemos na escuridão e na ignorância.

Vivemos na ignorância das nossas percepções, dos nossos atos e desejos, das construções mentais que tomamos como verdadeiras. Como um espelho, o Budismo é o ensinamento que nos revela a natureza do nosso Eu e da nossa existência neste mundo, ao tempo que nos aponta o caminho do esclarecimento, do despertar, da iluminação.

As Três Marcas da Existência:

Impermanência

A Impermanência é uma marca desta vida. Tudo passa, nada existe em essência e para durar. Nem as pessoas, nem os fatos que julgamos bons, nem os fatos que consideramos desagradáveis. Tudo é impermanente.

Interdependência / Não-Eu

Do mesmo modo que tudo é provisório, nada existe essencialmente por si mesmo. Todos os seres e todas as coisas estão relacionadas, numa rede de causas e condições. O Eu é uma construção mental, que nos dá a ilusão de sermos essencialmente uma pessoa, quando somos um resultado mutável e precário de muitas causas e condições.

Nirvana

É o apagar das paixões maléficas e a extinção do Eu ignorante, que conduzem ao nascimento de um ser desperto, um ser de sabedoria e compaixão. É a meta da vida budista: alcançar a Suprema Tranquilidade.

As Quatro Nobres Verdades

Primeira Nobre Verdade:

A realidade verdadeira é dolorosa/insatisfatória (dukkha). Esta é a nobre verdade do “sofrimento”: nascer, envelhecer, adoecer, morrer é sofrimento. União com aquilo que é desagradável é sofrimento, separação do que é agradável é dukkha.

Segunda Nobre Verdade:

A causa (origem) da dor (sofrimento, insatisfação) é o desejo (insaciável) e o apego.

Terceira Nobre Verdade:

A cessação do desejo e do apego leva à cessação do sofrimento. Quando você se desapega do “eu quero” ou “eu não quero”, então a sua vida entra em equilíbrio e você está completamente livre.

Quarta Nobre Verdade:

O caminho que conduz à cessação do sofrimento é o Caminho Óctuplo.

O Caminho Óctuplo

Percepção Correta ou Apropriada

Quando se compreende as Quatro Nobres Verdades, a lei das causas e efeitos, não se deixando enganar com as percepções ilusórias do Ego, pelas aparências e desejos.

Pensamento Correto ou Apropriado

Quando se tem a clara resolução de não nutrir paixões e desejos perturbadores, como o ódio e a ganância, nem de cometer atos nocivos.

Fala Correta ou Apropriada

Quando se evita palavras que sejam falsas, agressivas, abusivas, bem como palavras desnecessárias ou ambíguas.

Comportamento Correto ou Apropriado

Quando não se comete atos violentos como destruir a vida, roubar, vilipendiar o próprio corpo, abusar de outras pessoas.

Meio de Vida Correto ou Apropriado

Quando se evita uma vida desonesta e vergonhosa, obtendo seu sustento de forma digna e ética.

Esforço Correto ou Apropriado

Quando oferece o melhor de si para os outros e a comunidade, com dedicação e diligência, na realização de atos nobres.

Atenção Correta ou Apropriada

Quando se mantém a mente pura e atenta.

Concentração Correta ou Apropriada

Quando se mantém a mente tranquila, procurando compreender a sua essência.

O Buda Histórico

O Budismo surgiu na Índia, na região do atual Nepal, há quase 2500 anos, por meio do Buda Shakyamuni, que significa “sábio da tribo shakya, digno de reverência”. Nascido como príncipe Sidarta Gautama, abandona a vida suntuosa do palácio para seguir o caminho de praticante. Através da introspecção profunda, ele passa perceber o mundo ao seu redor sob um novo prisma, onde o olhar egocêntrico cede lugar à visão compassiva da grande unidade da vida, da interconexão de todos os seres. Através da sua iluminação, o Buda – que significa o desperto – descobre o caminho da paz e da felicidade, compartilhando seus ensinamentos pelos 45 anos seguintes.

Difusão do Budismo

Após Shakyamuni ter entrado no nirvana em Kushinagar, às margens do rio Hiranyavati, os leigos budistas distribuíram suas cinzas entre oito tribos e construíram estupas em oferenda ao Buda. Este evento marcou um momento de profunda reverência e devoção, simbolizando a continuidade da presença espiritual do Buda através dessas relíquias sagradas. Seguindo as últimas palavras do mestre, que foram “apoiem-se no darma”, quinhentos monges se reuniram em Rajagriha. Neste encontro solene, eles expuseram, de memória, todo o ensinamento transmitido pelo Buda Shakyamuni, com o intuito de preservá-lo e transmiti-lo fielmente às futuras gerações. Essa reunião, conhecida como o Primeiro Concílio Budista, foi fundamental para a codificação e sistematização dos ensinamentos, garantindo que a sabedoria do Buda permanecesse acessível e pura através dos tempos.

Rotas

Pode-se traçar duas rotas principais para a difusão do budismo. A rota norte, que percorre a Índia, segue pela Ásia Central, chegando à China e, finalmente, ao Japão, através da península Coreana. Dela origina-se o Budismo da Tradição do Norte. Por outro lado, a rota sul atravessa a Índia, chega ao Sri Lanka e difunde-se no Sudeste da Ásia, definindo o Budismo da Tradição do Sul.

Cerca de 100 anos após a morte do Buda Shakyamuni, a tradição budista que havia se difundido pela rota norte passa por uma cisão radical, dividindo a Sangha em duas vertentes: a Theravada, composta de monges anciãos, e a Mahasamghika, termo cuja tradução é “recitação em grande grupo”. Ao longo de trezentos anos, após esta primeira cisão, a Sangha se dividiu em cerca de vinte escolas, multiplicando-se e difundindo-se na Ásia e depois no resto do mundo.

Budismo Mahayana

Esta tendência, surgida por volta do século I d.C., passa a se autodeclarar como “o grande veículo” (mahayana), comparativamente às escolas anteriores consideradas como o “pequeno veículo” (hinayana), que chamamos também de budismo tradicional conforme o contexto.
Qual é a principal marca diferencial do Budismo Mahayana em relação ao Budismo tradicional? É a existência do Bodhisattva.
A designação Bodhisattva no Budismo inicial se refere apenas ao Buda Shakyamuni, antes de alcançar a iluminação. No Budismo Mahayana, por outro lado, o conceito de Bodhisattva passaria a ser aplicado também aos praticantes que aspiram à iluminação.
Além disso, diferentemente do Bodhisattva do Budismo Hinayana, que pratica em benefício próprio, o do Budismo Mahayana aspira à salvação de todos os seres, passando a se chamar “Grande Bodhisattva”.