Se ainda hoje o Professor Tikoh Naito (1945-2022) estivesse em vida, com essas mesmas palavras talvez estaria apontando o hábito predominante do scroll digital. Em cada scroll, nós compreendemos algo e nos esquecemos dele no mesmo instante.
“As cigarras não conhecem a primavera e o outono” – cita em sua obra o mestre Tan-luan (476-542) essa frase do Zhuangzi (c. 369-284), acrescentando uma observação: “Como poderia, então, este inseto reconhecer o próprio verão?”.
As cigarras, que chegam à superfície apenas no final do verão, obviamente não conhecem a primavera nem o outono. Tampouco sabem do que se trata o verão. Assim o filósofo expressa a fugacidade da vida. O que um indivíduo pode vivenciar e compreender durante esta vida, não passaria muito mais do verão que as cigarras passam sem perceber.
Por outro lado, o que o Buda Shakyamuni compreendeu na iluminação não se restringe a sua experiência. Pois o caminho que ele revelou já existia.
É como se um homem, caminhando por uma trilha na floresta, se deparasse com um caminho antigo, uma estrada antiga, utilizada por pessoas em tempos passados. Ele a seguiria. Seguindo-a ele encontraria uma antiga cidade, uma antiga capital habitada por pessoas em tempos passados, completa, com parques, bosques e lagos, murada e encantadora. Ele se dirigiria ao rei ou ao seu ministro dizendo: ‘Senhor, você deveria saber que caminhando por uma trilha na floresta eu vi um caminho antigo (…) Eu o segui (…) eu vi uma antiga cidade, uma antiga capital (…) completa, com parques, bosques e lagos, murada e encantadora. Senhor, reconstrua essa cidade!’ O rei ou o seu ministro reconstruiria a cidade de modo que ela se tornasse rica, próspera e populosa, repleta de gente e bem suprida.
(…)Da mesma forma, eu vi um antigo caminho, uma antiga
estrada, trilhada pelos iluminados de tempos passados.
(Nagarasutta, Samyutta Nikaya XII, 65)
Sabemos que o fundador do budismo é o Buda Shakyamuni. Mas não devemos entender que o Buda foi quem criou o budismo. Ele apenas encontrou a antiga estrada que fora trilhada por vários budas em tempos passados.
Quem procura o ensinamento do budismo, é capaz encontrar os fragmentos do mapa daquela cidade que o Buda e outros iluminados visitaram. Ao encontrá-los, compreendemos a grandeza da antiga capital em relação ao mundo tão limitado em que vivemos.
Com essa perspectiva, saberemos melhor por que os mestres do budismo da Terra Pura diziam que “Os seguidores do caminho da Terra Pura atingem o Nascimento, reconhecendo que são os seres ignorantes”. (Mattosho, 6).