O Buda Shakyamuni exprime, da seguinte forma, o quanto é raro nascer na condição humana e encontrar o ensinamento:
“Bhikkhus, suponham que este grande planeta terra estivesse completamente coberto com água e um homem lançasse uma boia com um único furo. Um vento do leste a empurraria para o oeste, um vento do oeste a empurraria para o leste. Um vento do norte a empurraria para o sul, um vento do sul a empurraria para o norte. E suponham que houvesse uma tartaruga cega. Ela viria para a superfície uma vez a cada cem anos. Agora, o que vocês pensam, bhikkhus? Aquela tartaruga cega, vindo para a superfície uma vez a cada cem anos, colocaria o seu pescoço naquela boia com um único furo?”
“Seria por mero acaso, venerável senhor, que a tartaruga cega, vindo para a superfície uma vez a cada cem anos, colocasse o seu pescoço naquela boia com um único furo.”
“Assim também, é um mero acaso que alguém obtenha o estado humano. Assim também, é um mero acaso que um Tathagata, um Arahant, perfeitamente iluminado, surja no mundo. O Dhamma e Disciplina expostos pelo Tathagata brilha no mundo.
“Portanto, bhikkhus, um esforço deve ser feito para compreender: ‘Isto é sofrimento.’
Um esforço deve ser feito para compreender: ‘Esta é a origem do sofrimento.’
Um esforço deve ser feito para compreender: ‘Esta é a cessação do sofrimento.’ Um esforço deve ser feito para compreender: ‘Este é o caminho que conduz à cessação do sofrimento.’” (Chiggala Sutta, Samyutta Nikaya LVI.48)
Mesmo nascendo na condição humana, se não encontramos o caminho da libertação dos sofrimentos, isso é equivalente a sair da montanha de tesouros de mãos vazias e terminar esta vida em vão.
O Buda revelou os sofrimentos inerentes ao ser humano e, diante deles, nos sugere não desviar o olhar do nosso próprio desejo insaciável. Observar que, do mesmo modo como nos surge o desejo, embora nos ocorra uma satisfação momentânea, nunca ficamos preenchidos por completo e começamos a buscar mais.
Assim, encontramos nossa própria tendência que, desde sempre, nos leva a mergulhar nas trevas.
Ao compreender nossa tendência, ela mesma se torna um recurso para buscar a origem da luz. Assim, descobrimos um tesouro em nossa própria existência, de uma forma tão miraculosa como a tartaruga cega consegue colocar seu pescoço no furo da boia. Isso é o que nós chamamos de “o trabalho do Buda”.