O escritor japonês Kenzaburo Oe (1935-2023) registra a vida de um jovem, vítima da bomba atômica em seu Hiroshima Notes (1965). Este hibakusha foi afetado pela explosão nuclear aos 4 anos de idade. Diferentemente da maioria das vítimas crianças, ele conseguiu alcançar a juventude, na qual foi diagnosticado com leucemia. Ele completou seus 20 anos numa cama do Hospital dos Sobreviventes da Bomba Atômica.
Os médicos impediam as células de glóbulos brancos de se multiplicarem nos primeiros estágios e, assim, conseguiram suspender temporariamente o desenvolvimento do câncer, como se dessem ao enfermo umas “férias de verão”. Na época, era possível que este período durasse por dois anos no máximo. Depois das “férias de verão”, no entanto, o jovem deveria enfrentar a morte que jamais o deixaria escapar.
Durante dois anos, ele quis viver firmemente como um humano, com uma existência social. Os médicos ocultaram o seu histórico de doença, que causaria discriminações, e procuraram um emprego para ele. Finalmente ingressou numa gráfica e trabalhou junto com seus colegas, em meio aos ruídos das impressoras.
Ele quis viver de fato cada momento que era lhe permitido. Até começou a namorar uma menina que trabalhava numa loja de instrumentos musicais. Logo eles se noivaram.
Depois de dois anos, as “férias de verão” terminaram. A náusea insistente passou a atormentá-lo, e todas as suas articulações doíam. O noivo voltou a ser internado e não resistiu aos piores pesadelos causados pela doença.
Uma semana depois, a noiva visitou o Hospital para agradecer os médicos e enfermeiras e deixou como lembrança uma estátua de um casal de cervos. E desapareceu.
No momento em que o escritor foi ao hospital e viu aquele veado robusto acompanhado de uma corça amável em cerâmica, perdeu as palavras.
Ao apurarmos o ouvido, podemos perceber que basta existir. Tudo o que precisamos, talvez já esteja em nossas mãos.
Namandabutsu
Rev. Keizo Doi
Monge Regente do Templo Shin Budista de Brasília