FRASE DO MÊS

Janeiro

Ensinar a “não incomodar os outros” é moral. Ensinar a reconhecer que “está incomodando os outros” é o dharma budista.

Quem vê o dharma, vê as casualidades dos fenômenos (pratitya-samutpada). Por exemplo: diante desta crise climática, em vez de ensinar a cuidar mais do planeta Terra, o budismo nos orientaria a considerar essencial o fato de que a Terra é quem condiciona nossas existências. Assim o dharma abordaria nossa ignorância latente à realidade, da qual se originam paixões cegas, carmas e sofrimentos, sucessivamente.
Mestre Shinran (1173-1263) registra na sua carta as seguintes palavras do seu mestre Honen (1133-1212): os seguidores do Caminho da Terra Pura atingem o Nascimento, reconhecendo que são seres ignorantes. (Mattosho, p.41)

Além disso, ele continua, lembro-me de que, ao ver pessoas humildes, sem pretensão intelectual virem visitá-lo, ele dizia sorrindo: “Sem dúvida o Nascimento deles está garantido”. Para um homem presunçoso mostrando erudição, Honen dizia: “eu tenho sérias dúvidas a respeito de seu Nascimento na Terra Pura”. 

O ensinamento paradoxal pode se tornar um portal de transformação para quem aspira a libertação. Há uma outra frase do Shinran que soa até polêmica no Tannisho (p. 43): se até uma pessoa boa consegue nascer na Terra Pura, muito mais o poderá uma pessoa má.
Essa expressão não quer dizer que para alcançar o “Ir-nascer na Terra Pura” é preciso cometer alguma ofensa. É importante ler nela que a percepção sobre a própria salvação é acompanhada da autoconsciência sobre ser mal e ignorante.
No Shoshingue, Shinran expõe essa visão da seguinte forma: aqueles que estão mergulhados em profundo mal cármico devem apenas recitar o Nome do Buda Amida. Eu também estarei junto a eles sendo abraçado pela luz dele. Mesmo que as paixões cegas me obscureçam a visão, a grande compaixão me ilumina sempre e incansavelmente.

Rev. Keizo Doi
Monge Regente do Templo Shin Budista de Brasília