Um mestre perguntou para seu discípulo novato: Veja bem, o espelho reflete um objeto invertendo seus lados, certo?
Ele respondeu que sim, espontaneamente. “Por que então- segue o mestre- ele não inverte verticalmente?” Como ele não encontrou uma resposta, lhe pediu um tempo. Sempre que encontrava com o mestre, ele tentava acertar a resposta sem sucesso. Afinal, ele desistiu.
“Meu jovem, o espelho não inverte os lados” – surpreendeu-o o mestre. Diante de um espelho, o jovem conferiu que ele refletia sua imagem exatamente do jeito como ele estava.
“Os seres comuns só podem reconhecer o exterior ao colocar a imagem de si próprio no centro do mundo. Ao cair a chuva, por exemplo, eles dizem que essa chuva é boa e aquela é ruim. Como se sabe, a chuva em si não possui esse tipo de qualidade. A chuva pode ser boa ou não de acordo com a conveniência deles.”
A imagem de si próprio que ocupa o centro do universo é o atman, ou seja, o Eu. Este se considera enganosamente permanente, único e independente. E assim se normaliza e se torna cotidiano.
Outro dia, o mestre estava animado e fez para seus discípulos uma pergunta: o que significa o estado de emergência? “É um estado que não é normal, cotidiano” –respondeu um discípulo. O mestre continuou – “Como é um estado normal? Como é um estado cotidiano? Eles se olharam entre si.
Aquele novato se levantou e afirmou que o estado de emergência é uma condição em que a vida está exposta ao risco. O mestre se empolgou- “E agora? Está tudo bem com você?” Os outros riram enquanto o jovem ficou pensativo.
Ao terminar o encontro, o mestre quis saber o motivo do silêncio. O novato lhe contou que, quando ele tinha 9 anos de idade, saiu de casa junto com seu pai. Este foi à estação de trem como sempre. E o menino, para a escola. Lá, os professores o mandaram retornar para casa. A mãe o levou, então, ao hospital onde encontrou seu pai morto por um acidente. E ele concluiu para o mestre – “Esse momento não é cotidiano”.
(fonte: Mensagem do Buda Shakyamuni- Viver, do Prof. Shobun Naito, Kyoto, 2019)
Rev. Keizo Doi
Monge Regente do Templo Shin Budista de Brasília